O isolamento social em perspectiva, Anne Frank e o papel do líder

A pandemia vai acabar, mas quanto tempo ainda vamos precisar para processar tantas emoções?



Aos nossos avós, foi pedido para irem à guerra. Anne Frank ficou dentro de um porão por anos. A nós, está sendo pedido que fiquemos no sofá.

Precisamos ajustar a perspectiva do que estamos vivendo para não nos comiserarmos em demasia. Não estou menosprezando a gravidade do momento atual, mas apenas tentando compreender ou alinhar – se é que é possível, o turbilhão emocional em que todos estamos.

Pense comigo: se nos entregarmos à tristeza e ao medo, estaremos honrando as gerações de antepassados nossos de Anne Franks e outros heróis com histórias incríveis de lutas insanas pela sobrevivência, que valorizavam tanto a vida a ponto de sobreviver por situações incrivelmente mais desumanas do que apenas um isolamento social? Claro que não.

Só que, mesmo colocando tudo no que parece ser uma perspectiva mais real — pelo menos do ponto de vista histórico — como é difícil o que estamos vivendo!

A vida nunca foi tão farta quanto no século XXI. Imagine se a Anne Frank tivesse um tablet com Netflix! Pois é… Será que as facilidades e distrações do século XXI nos afastaram tanto de nós mesmos que desconhecemos nossa força interna para lidar com as adversidades?

Como empresária de uma pequena indústria alimentícia, a minha primeira grande dificuldade assim que começou a quarentena, foi tirar as pessoas que estavam a minha volta do pânico. Minha equipe comercial teve um “apagão” e entendeu que o nosso maior cliente não compraria nada, pois a diretoria teria mandado segurar as compras porque não sabiam o que aconteceria e não queriam estocar. “Mas, se é uma rede de mercados, se somos um setor essencial, como assim não comprariam? Deixariam os consumidores na mão exatamente quando mais precisavam abastecer suas casas? ”

Eu não tenho a menor ideia do porque eles entenderam isso… e nem eles. O que eu descobri depois foi que ninguém tinha dito isso para eles.

O desespero emocional de não saber o que estava acontecendo e, principalmente, o que aconteceria em seguida, os fez enxergar aquilo que era, na verdade, o maior medo deles. Percebam a realidade em que vivíamos naquele momento preciso: os hotéis para quem vendíamos fecharam – não compravam e nem pagavam o que já tinham comprado; a maioria das lojas de produtos naturais fecharam porque ficam dentro de shoppings – dessas, há poucas funcionando para delivery, porém com uma média de apenas 20% do faturamento; revendedores dizendo “não sei como e quando vou te pagar”, fornecedores dizendo “você precisa me pagar”. Para piorar, o que chegava naquele instante no meu ouvido era “a rede de mercado que é o seu maior cliente não vai comprar de você!” E agora? Só que realmente nada disso tinha sido dito pelo cliente em lugar ou hora nenhuma. Aquilo foi, sei lá, uma histeria do momento, não sei como nomear. Só sei que, quando você é responsável pelo sustento de não apenas a sua família como o de outras – isso é ser empresário, a figura da liderança cresce em defesa da sua matilha.

Sim, ao contrário do que é comumente dito no Brasil, onde se coloca os empresários como pessoas que só se importam com o lucro em detrimento do bem-estar das pessoas para quem ele gera emprego, exatamente e muito ao contrário do que é dito em muitas rodas neste país, a maior parte dos empresários que eu conheço perdem o sono quando vêm ameaçados o bem-estar de seus funcionários e os colocam em primeiro lugar, antes mesmo do seu próprio sustento. É uma lástima a distorção de valores que fazem, dando cartaz para as exceções podres em vez da grande maioria que arregaça a manga e que lida com coisas inacreditáveis nesse país para manter suas empresas em funcionamento, conservando os empregos e contribuindo de várias formas para a evolução da nação. Mas, voltemos a defesa da matilha.

Como líderes, quando todos a nossa volta estão em pânico, cabe a nós, segurar a peteca. A mim, coube entrar em contato com cada responsável de compras de cada loja da rede de mercados, suavizar a voz, como se nenhum pedaço de mim, estivesse contagiado pelo pânico coletivo, mostrar o meu lado humano que genuinamente se preocupa com a segurança e saúde daquela pessoa que está no front de batalha, enquanto a maioria está no sofá, e dialogar. Foi assim que eu descobri que a diretoria não havia dado aquela tal ordem insana de não comprar. Mas, entendam: se eu não tivesse falado com cada encarregado, naquela semana os pedidos teriam sido de 10% do tamanho habitual. O mesmo ocorreria na semana seguinte e na outra. E provavelmente, hoje em vez de escrever sobre isso, eu estaria encerrando a empresa.

Muito ao contrário disso, essa rede de mercados se mostrou parceira da população e de seus fornecedores. Precisei da ajuda deles e a obtive. Mais uma prova de que há vida inteligente e sensível dentre os empresários.

Esse episódio me fez constatar que ser líder é encarar o medo de frente, antecipar-se a ele e pedir ajuda quando necessário. Assim pudemos manter a matilha viva, apesar de termos sofrido alguns duros golpes. Cambaleamos e ficamos capengas, mas vamos sobreviver. Aliás, mais do que sobreviver, porque na crise há oportunidades e, uma vez que nós não nos paralisemos pelo medo, essas oportunidades brilham como vagalumes em nossa direção. Porém, não se enganem, em algum momento, sozinhos, os líderes também desabam… Só que desabam já mirando no fundo do poço a fim de pegar o impulso de volta à superfície.

E como será que agiria Anne Frank se estivesse hoje por aqui?

Por: Dora Sterenberg





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